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Massa e o mal necessário
26-07-2010

Rafael Ligeiro

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Grande Prêmio da Alemanha, 12ª etapa da temporada 2002 de Fórmula-1. A bordo de um razoável Sauber, Felipe Massa fazia às honras da equipe suíça em pista. Com um excelente rendimento, ocupava a sexta colocação. De repente, eis que o radinho do carro do brasileiro toca. Era Peter Sauber, dono do time, que gentilmente pediu a Massa para que deixasse o seu companheiro de escuderia, o alemão Nick Heidfeld, passar. Assim Felipe o fez. Recebeu a quadriculada no sétimo posto. Heidfeld, em sexto.

 

Quase oito anos depois, mais precisamente no Grande Prêmio disputado nesse domingo, a história se repetiu. O palco foi o mesmo daquela prova em 2002: o circuito de Höckenheim. Só que ao invés da Sauber, a equipe do brasileiro agora era a poderosa Ferrari. E sua posição não mais a sexta colocação, porém a primeira.

 

É evidente que episódios assim me fazem sentir uma pontinha de desgosto com esse esporte. Sentimento, aliás, que creio fazer parte da imensa maioria dos fãs do automobilismo. Contudo, precisamos aprender a conviver com esse mal, pois os interesses de uma equipe sempre estarão acima dos valores de um piloto.

 

Tal pensamento pode soar estranho, afinal, a sensação que fica é a de que, pelo fato de um piloto comandar sozinho um carro de competição, o automobilismo seja uma modalidade individual. Ledo engano. O automobilismo é um esporte coletivo.  A maior prova disso é que pilotos como Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher, apesar de serem gênios do volante, só tiveram chances de vencer campeonatos quando profissionais que o cercavam foram capazes de muni-los com estratégias de corrida impecáveis e carros competitivos.

 

A manobra pró-Alonso em Höckenheim foi mais um episódio feio à história da Fórmula-1. Mas, nos coloquemos no lugar de um dirigente da Ferrari. É evidente que uma vitória de Massa seria muito comemorada. Contudo, a turma do time italiano ainda tem esperanças de vencer o campeonato de Pilotos desse ano. E, até então, qual era o piloto com mais chance de brigar por essa conquista? Alonso, claro. O asturiano chegou à etapa alemã com 31 pontos de vantagem a Felipe.

 

Tudo bem. Agora imaginemos que a Ferrari não metesse o bedelho. Deixasse a disputa entre Massa e Alonso rolar. O que impediria que, após uma tentativa de ultrapassagem de Alonso, os ferraristas batessem? Nisso poderiam ser perdidos pontos preciosos na busca pelos mundiais de Pilotos e Construtores, iguais aos que a dupla da Red Bull dispensou no acidente ocorrido no GP da Turquia desse ano...

 

Ao contrário do que muitos imaginam, jogo de equipe é algo que acontece muito constantemente na Fórmula-1. No entanto, em alguns casos, a repercussão é estrondosa; noutros, é pequena. Tão pequena que fica até a impressão de que não ocorreu o dito-cujo. O próprio Felipe Massa é um exemplo disso. Ele já foi beneficiado e prejudicado por jogos da Ferrari que não repercutiram como o ocorrido nesse domingo – ou aqueles que envolveram Rubens Barrichello e Michael Schumacher, nos GPs da Áustria de 2001 e 2002.

 

Vale lembrar que em 2007, o então companheiro de Massa na Ferrari, Kimi Räikkönen, sagrou-se campeão da temporada porque o paulistano cedeu-lhe a vitória no Grande Prêmio do Brasil. No ano seguinte, contudo, o finlandês “retribuiu”. Na penúltima etapa daquele campeonato, na China, o escandinavo, a pedido da Ferrari, deixou Massa assumir o segundo lugar – resultado que permitiu ao brasileiro chegar à prova decisiva, em Interlagos, sete pontos atrás do líder do campeonato, Lewis Hamilton.

 

Mas se cabe aos cartolas pensarem no “coletivo” e promover manobras em prol de sua empresa, há uma peça que pode travar toda essa engrenagem: trata-se do piloto, digamos, a ser prejudicado. Ele pode bater o pé, afirmar “Daqui ninguém me tira” e seguir na frente do companheiro de time. Mas essa é uma decisão que pode queimar a carreira de qualquer profissional ao volante.

Não podemos condenar a Ferrari. Tampouco a Felipe.

 

E a vida segue.

 

 

*****

- Apesar da frustração, Massa tem motivos de sobras para sair de Höckenheim de cabeça erguida. Embora tenha ficado quase meio segundo atrás de Alonso na classificação, ele fez uma corrida quase irretocável. Deve terminar o ano atrás do asturiano, mas não sem dar uma trabalheira danada ao companheiro de Ferrari.


© Rafael Ligeiro